9 de junho de 2021

Uma cativante declaração de amor

Na véspera do Dia dos Namorados, 11 de junho, será oficialmente lançada a antologia Eu chamo de amor (Melhoramentos), que reúne contos dos jovens escritores Giulia Paim, Fernanda de Castro Lima, Marina Carvalho, Vinícius Grossos, Laura Conrado, além de um texto inédito de Fernanda Young.

O projeto foi idealizado pela agente literária Eugênia Ribas-Vieira, que assina também o prefácio da edição, em uma espécie de carta-convite aos leitores: “Estes contos nos permitem ampliar a nossa capacidade de amar. E o que é a vida, senão isto: a ampliação de nossa capacidade de amar?” Os desencontros e os conflitos do amor, o amor em toda a sua diversidade, o amor que se aproxima da saudade e também o ridículo a que nos expomos em nome do amor. Encontramos nessas páginas muitas facetas deste sentimento de definição ampla e insondável, mas que todos identificam ao experimentá-lo.

Separamos, com exclusividade, o texto de Cecilia Young que antecede o conto La Zorra, de Fernanda Young. Confira aqui:

Apresentação do conto inédito La Zorra

por Cecilia Young

Eu tive dificuldade de encontrar as palavras certas para escrever aqui. Faz quase dois anos que perdi a minha mãe, Fernanda Young, e tudo que eu coloco no papel parece dramático, trivial ou idiota. Decidi que vou contar uma história. Esse sempre foi o jeito que minha mãe achava mais confortável para relatar os seus tormentos, e talvez seja um bom caminho para mim também. Minha teoria é que tem algo a ver com olhar a situação de uma maneira mais distanciada. Um panorama geral de sua dor, entende? Bom, chega de te atarantar com as minhas questões filosóficas.

Tive bastante tempo durante o último ano e meio para organizar minha vida e pensar. Por volta do meio do ano passado, encontrei diversos LPs da minha mãe em sua adolescência: Simon & Garfunkel, The Smiths, David Bowie… Eles possuem um pequeno rabisco com “Fernanda, 1984” no topo. Coloquei um tocador de discos azul-marinho da Crosley no meu quarto e tenho passado os meus dias escutando-os.

Eu me sinto próxima dela toda vez que a pequena agulha começa a deslizar sobre as ondas do vinil. Queria poder ter conversado mais com ela sobre essa parte de sua vida. Bom, se eu soubesse que ela não estaria mais aqui, que partiria tão cedo, teria feito mais perguntas. Ela falava que eu não dava muita bola para ela. Eu sei que era brincadeira, mas ela não tem noção do quanto errada estava. Ela sempre me fascinou como ninguém.

Posso te contar algumas coisas: ela fumava escondida no quarto que dividia com a minha tia, e as paredes delas eram repletas de pôsteres de filmes de terror e artistas da época. Sei que ela conheceu meu pai em uma boate, e que era uma dançarina cativante e maravilhosa. Fernanda Young era simplesmente a adolescente mais legal de todos os tempos, não era? Eu não consigo mensurar a minha sorte de ter sido criada por ela.

Eu posso imaginá-la sentada em seu quarto de adolescência, com seu estilo meio-beatnik-meio-punk, dançando, cantarolando com seu inglês com sotaque russo. O que será que ela pensava? Será que a Fernandinha escutava “Back to the Old House”, do The Smiths, e pensava no apartamento da minha bisavó, onde ela cresceu? Será que rodopiava pelo quarto com a minha tia com “Let’s Dance”, do David Bowie? Talvez seja o meu espírito de escritora, mas eu me encontro inventando pequenos episódios estrelados pela adolescente rebelde Fernanda Maria de Leite Young. Se você está lendo isso, eu te convido a fazer o mesmo. Te prometo que ela é a personagem mais interessante que existe.

Este texto que você vai ler a seguir é um gostinho da Young. Da Jovem. Posso ter conhecido ela só quando adulta, porém o seu espírito rebelde nunca se apagou – e duvido que um dia se apagará. Não é por nada que a sua música era e sempre será “Forever Young”, do Alphaville. Youth’s like diamonds in the sun and diamonds are forever…


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