18 de fevereiro de 2021

Demissão consentida

Texto a partir de Manual da demissão, de Julia Wähmann (Record)

Por João Schlaepfer

Demissão é tipo um divórcio não consentido. Para tomar o pé na bunda de uma empresa pouca diferença faz querer assinar os papéis ou não. Como num relacionamento abusivo, mesmo que o contratante nada fale nem ameace, passa pela cabeça de qualquer proleta o debate ético-monetário: clamar por seus direitos e ser um justo desempregado ou assinar os papéis e ser bem indicado?

Depois vêm as crises de atualizar o currículo, o cancelamento do Bilhete Único, a procura por um plano de saúde, a ida a exames demissionais e, não fosse a pandemia, lembraria que o “desemprego tornou-se endêmico”, como você coloca, Julia, em seu romance Manual da demissão (Record). Fico na dúvida se chamo de previsão assustadora ou de distopia crítica. Fato é que, roubando novamente um trecho seu, “A classe de trabalhadores se transformaria num grupo para o qual se olha com desconfiança, receio, como se fossem pragas, ou ameaças à maioria desempregada”. Ou então, numa sinuca de bico, olha-se para qualquer um com desconfiança. O empregado quer subir de vida, subir de nível, ganhar mais, ganhar mais garantias e por isso me engole. O desempregado quer qualquer coisa de certa ou incerta para ter porque voltar no dia seguinte sabendo que a conta de luz está paga.

Não tenho dúvida de que o livro será eternamente atual, Julia. Tive dificuldade para separar o real da ficção e enquanto lia lembrava de tantas questões políticas irresponsáveis, negligentes, torpes. Vivemos em um país que cria ele mesmo a regra e ele mesmo a tática para burlar a regra, fabricando um sem-número de CEO de MEI, de self-consultant, de coach hipnoterapeuta ou quântico-molecular. Me pergunto, se são todos seus próprios chefes, quem dá as ordens?

Enfrentamos uma grave crise trabalhista com os direitos dos trabalhadores vilipendiados, com a tal da carteira assinada sendo atirada à lareira e volto ao seu livro com saudades daquela época em que “só o que aumentava era o preço do chocolate, do cinema e do coco na praia”. Ou eu era mesmo uma criança e ainda não sabia das coisas, ou já estivemos numa maré mais mansa. Curiosamente nessa época, nós não “Vivíamos há semanas na praia, bebendo mate sujo de galão, expostos ao risco das bactérias do queijo coalho” e tampouco sabíamos que o queijo coalho e o mate sujo de galão teriam cheiro de nostalgia. Acho que os vendedores de mate ficaram um bom tempo sem seus empregos e sem garantias para pular escravos de Jó na fila do auxílio emergencial, do seguro desemprego e do FGTS, que parece agora parece mais ficção do que o próprio livro.

 Ao contrário do que eu imaginava de início, não senti o peso da recusa, mas a leveza do desprendimento, da liberdade que ganha quem se afasta de um relacionamento abusivo, de quem reconquista os pequenos prazeres demitidos da rotina. Se a protagonista teve “um namorado que, fatalidade,” a “deixou naquele sábado, embora já estivesse” a “deixando há certo tempo”, há quanto tempo não era ela quem deixava os chefes e os colegas de trabalho? A demissão é um namoro que sola. Deve ser por isso que a personagem cresce, e não falo aqui “de dois a três centímetros em altura, de tanto que a vida sentada na cadeira giratória” a achatou, falo da reconquista das vontades, do voo solo acompanhada. Nos apequenamos pela covardia da permanência quando ela é mais fácil ou mais cômoda. Até não ser mais. Me impressionei com seu grau de verdade. Com a tristeza velada e a alegria contida em não saber qual o próximo passo.

Me irrito profundamente quando me dizem “calma”, “relaxa”. É como dizer ao palhaço “não fique triste”. É preciso permitir que as angústias floresçam e brotem. É preciso reconhecer que essa autoajuda a terceiros às vezes descamba para “Quando uma porta se fecha, uma janela se abre, mas em alguns casos ela é um basculante estreito, pelo qual você não consegue passar.”. Mas que, ainda assim, temos onde e com quem participar de uma “festa melancólica, bonita e absolutamente desafinada, cujo encerramento, verdadeira catarse coletiva, foi uma cantoria em que extravasamos nossos ódios por todos os patrões que ficaram malucos.” Isso, claro, quando os patrões estiverem vacinados.

*João Schlaepfer é roteirista. Formado em Letras pela PUC-Rio, estendeu seus estudos à dramaturgia, ao audiovisual e ao humor. Contribui para publicações literárias, é parceiro da FMaciel Comunicação e atua como Analista de Branded & Digital Content na Play9.


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