29 de junho de 2022

Pequenos fragmentos urbanos

Mateus Baldi faz sua estreia literária com o livro de contos “Formigas no paraíso” em que expõe hipocrisias e prazeres secretos.

Por Felipe Maciel

“Quem lê esse primeiro livro de Mateus Baldi não imagina: que é o primeiro, que ele é um autor tão jovem e que os personagens que compõem os contos de ‘Formigas no paraíso’ tenham sido inventados. A maturidade de sua escrita — concisa, física e penetrante — dá ao leitor a sensação de que se trata de um autor experiente, tanto na arte da escrita como na vida. E realmente é algo a se pensar.”

Quem assina o elogio estampado no texto de orelha de Formigas no paraíso, obra que marca a estreia literária de Mateus Baldi, é a experiente e premiada escritora Noemi Jaffe. A recepção calorosa ao livro que reúne 11 contos inéditos do autor e acaba de sair pela Faria e Silva Editora não para por aí: Arthur Dapieve, Giovana Madalosso e Marcelo Moutinho também fazem coro para um dos primeiros grandes livros do ano.

O cenário é o Rio de Janeiro, mas a matéria-prima que conduz a escrita do autor é a subjetividade de suas personagens, quase todas mulheres, que vivem os pequenos grandes dramas que regem nossas vidas. Mateus escreve sobre questões familiares, traumas nunca superados e desejos silenciados e recalcados.

Assim, ele nos apresenta a Karen, Wong, Vera, Bruno, Marina e tantos outros, envoltos por uma melancolia do que poderíamos ser ou ter sido. Um mosaico inventado e demasiadamente humano, cujo elo comum é a nossa eterna incompletude.

1 – Você tem uma trajetória profissional já consolidada no mercado literário, atuando como crítico literário, curador e mediador. Mas com o lançamento de Formigas no paraíso você faz sua estreia como escritor. Como está sendo a experiência de mudar “do lado do balcão”?

Eu sempre me considerei escritor. Fazer crítica, curadoria e mediações é uma consequência, muito natural, a meu ver, desse interesse primordial pela escrita. Passei a ter alguma visibilidade nos últimos anos, mas meus amigos mais próximos sempre leram tudo que eu escrevia, nos círculos mais íntimos sempre fui mais escritor do que qualquer outra coisa. Por um tempo até virou brincadeira: todos os meus amigos já tinham livros publicados, menos eu, mas não tive pressa. Deixei as coisas acontecerem. E não acho, absolutamente, que uma coisa invalide a outra. Na verdade, aqui dentro, elas se complementam.

2 – Como surgiram os 11 contos do livro? Quando foram escritos? Como é seu processo de criação?

Escrevo contos desde a adolescência, mas houve uma mudança brusca quando escrevi De cair a chuva, que abre o livro, e ganhei o prêmio Paulo Henriques Britto, da PUC-Rio. Alguns colegas escritores, como Carlos Eduardo Pereira e Miguel del Castillo, também já ganharam, e senti que ali minha escrita tinha conseguido atingir uma maturidade publicável, assim digamos. O que veio a seguir foi absolutamente natural, quase em espasmos. Eu tinha conversas que rendiam histórias incríveis e eu sentia que precisava escrever; ou então testemunhava algo e torcia até virar um material narrável, por assim dizer. Os contos, à exceção do conto-título, que foi escrito na sala de uma amiga, de tarde, enquanto ela não chegava em casa, foram escritos de madrugada. Sempre escrevi de madrugada. Gosto do silêncio, de ter muitas horas à disposição sabendo que ninguém vai me ligar ou mandar mensagem, enfim, atrapalhar. Mas literalmente qualquer coisa pode virar um gatilho para a escrita. Eu estou sempre observando, sempre anotando ideias, pensando em frases, personagens.

3 – A maior parte das protagonistas apresentadas no livro são mulheres. Como é escrever do ponto de vista feminino? Esta foi uma decisão narrativa tomada desde o início? De que maneira a sua escrita reflete a sua maneira de ver e de se colocar no mundo?

Chegou um tempo em que eu simplesmente não conseguia mais escrever com personagens masculinos. Na época eu me identificava como homem, nem sabia direito o que era queer e todas as possibilidades que existem,  e achava que isso tudo já tinha dado: homens escrevendo sobre homens e essa lenga-lenga. Por outro lado, sempre tive, desde a adolescência, uma questão de gênero escondida debaixo da pele, de uma máscara social, que no meu caso em definitivo era uma máscara, então foi muito natural começar a me soltar. Antes desses contos eu já escrevia com uma personagem fixa, motivado por amigas que pareciam enxergar ali algo que eu não via – mas sentia. Todas essas mulheres do livro me vieram de forma absolutamente espontânea, quase prontas, tridimensionais. Mas quando reli o livro, prestes a publicar, tive uma surpresa: de certa forma, elas eram tudo que estava escondido dentro de mim esses anos todos. Eu não teria conseguido me assumir queer, livre, e refletir meu lugar no mundo se não fosse por estas histórias, estas personagens, este livro.

4 – Uma viagem de fim de semana, a ida a um velório, a rotina de um clube, o reencontro de ex-amantes na praia, você retrata situações corriqueiras no livro, mas que revelam o mundo interior de seus personagens, suas motivações, seus desejos e frustrações. As situações banais são mais reveladoras?

Parece quase clichê, mas sim. A grandiosidade muitas vezes só revela seu tamanho. Uma batalha, por exemplo, é muito mais interessante na perspectiva de cada soldado, cada humano e sua história em si, do que na conta total de mortos e feridos, quem venceu quem. Isso é estatística, e não me interessa. Me interessa sobretudo o tecido da cidade, o agrupamento humano ao redor de uma geografia e como tudo se deriva a partir disso – os encontros, as frestas, os toques, os embates. Está tudo ali, naquele espaço circunscrito. A cidade é uma caixinha de fósforos esperando para ser acendida de uma vez. Era isso que eu queria ter no livro.

5 – Você escreve também sobre relações familiares, sexualidade, desejo. Quais os temas que procurou abordar na obra? Quais assuntos mais te interessam? Há um elo em comum que costura os 11 contos do livro? Qual ou quais?

Não houve exatamente um tema. A questão da cidade e seus embates, como as pessoas se esbarram nesse tecido, me parece o fio condutor, mas também as famílias – que é família? O que constitui uma individualidade e um coletivo? Penso muito também numa espécie de paisagem que fica após tudo ser devastado. Como essas pessoas lidam com a angústia, e aí o sexo, o desejo, o conflito, e em que tipo de recorte elas se inserem, e se fabricam – lidar com a angústia é, sobretudo, uma fabricação, você parte de algo e cria. Eu queria, em alguma medida, tentar descobrir esses motivos, essas maquinações que ficam escondidas nas relações e moldam nossa forma de existir no mundo.

6 – Formigas no paraíso é um título enigmático e é também um dos contos do livro. O que o motivou na escolha do título? Qual seu significado?

Foi bem simples, quase trivial. Eu precisava dar um título àquele conjunto e não pensava que pudesse ser o caso de uma palavra ou uma expressão que os unisse; tinha que partir dos contos. Analisei os títulos e Formigas no paraíso definitivamente me pareceu bom. Por dois motivos: refletia o que todos aqueles personagens eram, formiguinhas no paraíso, e o Rio de Janeiro, e a cidade, melhor dizendo, é isso, um paraíso com formigas corroendo tudo; e a cena que dá título ao conto me parecia emblemática. Gosto daquela dinâmica, daquele diálogo, daquela situação. Tudo se encaixava. Não havia por que mudar.

7 – Seu primeiro livro recebeu elogios entusiasmados de nomes importantes da literatura brasileira, como Noemi Jaffe, Giovana Madalosso, Arthur Dapieve e Marcelo Moutinho. O que significa para você esse reconhecimento em seu livro de estreia?

Uma glória, no mínimo. Todos eles, à sua maneira, foram importantíssimos na minha escrita e na minha trajetória como ser humano. Que tivessem gostado do livro foi o mais próximo do sublime. É uma sensação muito esquisita – no bom sentido – quando pessoas que você admira também te admiram, como se houvesse um sistema formado, fechado, que nos une. Esse tipo de coisa me comove, me faz pensar muito na humanidade e em como é importante se relacionar com as pessoas, estar aberto a entregar e receber o mundo, a existência. Só posso agradecer.


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